Amélia Vieira


Amélia Vieira é a primeira atleta a merecer ver publicado extractos da sua vida desportiva e social no blog do Grupo Desportivo, e é justo dizê-lo: tal não se deve somente ao facto de ser um elemento feminino. Quer o director deste blog começar pela jovem Amélia Vieira pelo facto de se tratar da primeira campeã de Portugal de Castelo de Paiva na modalidade de atletismo e também para compreender-se o que faz correr uma jovem e se é possível equiparar-se o sector feminino e masculino no campo das oportunidades.



Data Nascimento: 28-03-1989
Alguns resultados:

  • Campeã Nacional Montanha Escalão Jun Fem 2007 (Guarda)

  • Vencedora Taça Portugal Montanha Escalão Jun Fem 2007 e 2008

  • 3ª Class. Campeonato Portugal 10000m 2009 (Maia)

  • 3ª Class. Taça Portugal Montanha Escalão Sen Fem 2009

  • Campeã das Beiras 5000m 2009 (Seia)

  • Campeã Distrital Estrada Escalão Sub-23 2010 (Cesar)


Tens um currículo interessante, é só isso que te motiva ou há algo mais, por exemplo, provar que a mulher pode e deve equiparar-se ao homem ou até superar o nível?


O que me motiva é muito simples é querer ser melhor, nunca estar totalmente satisfeita com o que faço e principalmente gostar de correr, não o faço para agradar a outros ou por vaidade. Ainda sou jovem tenho muito que aprender, muito que progredir na modalidade e isso também é uma boa motivação. Sei que no futuro vou cair muitas vezes, mas irei levantar-me mais vezes ainda. Vou ter fases boas e fases más, épocas que me correrão melhor outras pior, mas tudo isso faz parte. Para mim um grande atleta e um grande campeão não se vê pelos títulos alcançados, mas sim pela forma como se levanta depois da queda. A mulher por mais que queira nunca se poderá comparar ao homem a nível desportivo por razões anatómicas, temos algumas desvantagens em relação a eles, mas isso não é impeditivo. Hoje e cada vez mais se vai vendo que as mulheres pouco ligam às desvantagens que tem a nível desportivo.



Uma terra como a nossa (e tu deves senti-lo) é ingrata para a mulher emancipada, tem muita relutância em reconhecer o mérito à mulher desportista, como lidas com isso?


Infelizmente não é só em Castelo de Paiva que isso acontece, temos uma cultura muito ignorante a nível de dar valor à mulher. Ainda há muito trabalho a fazer, ainda há muito preconceito mas também porque a mulher deixa. As mulheres lutam para terem os mesmos direitos que os homens, mas esquecem-se que isso implica terem os mesmos deveres e por isso muitas vezes resignam-se e continuam a sair prejudicadas. A nível desportivo isso também se nota, teimam em protegê-la demasiado, nomeadamente na questão das distâncias nas provas. Não vejo razão para o qual a mulher quase sempre corre menores distâncias que os homens. Quanto ao mérito, como já disse é relacionado com a cultura que infelizmente temos, por mais que a mulher faça mais e melhor dá-se sempre mais valor ao que o homem faz.



És uma atleta/estudante, devido à tua vida académica, com certeza terás dias em que vacilarás. A ausência da família, do teu grupo de treino, do teu pai-orientador, como superas esses momentos de nostalgia?


Como qualquer estudante universitária que tem de ficar longe de casa tenho dias que gostaria de ter a família por perto. E a nível do atletismo mais isso sinto, porque muitas vezes tenho de treinar sozinha e nem todos os dias são fáceis. Felizmente sou uma pessoa que não tem problemas em treinar sozinha, apesar de haver dias que custam. Entre sozinha e acompanhada claro que prefiro acompanhada. Treino quer me apeteça quer não. Se não tivesse objectivos provavelmente já teria abandonado, mas quando se os tem as coisas tornam-se mais fáceis. Vacilar faz parte, errar faz parte só quem não experimenta nem arrisca é que não erra nem vacila. Sei que apesar de ainda não o sentir, quando terminar o meu curso serei uma pessoa melhor e irei superar e encarar certas coisas de forma diferente.



Apesar de ser sobejamente reconhecido o benefício da prática desportiva na nossa formação, parece que ainda não foi articulada a forma de conciliar a prática desportiva e a escolar, nomeadamente a nível de treinamento e aproveitamento académico. Também é do nosso conhecimento os anos sabáticos que a maioria dos atletas/estudantes fazem, por isso a pergunta que se coloca é esta: tens força psicológica e física (para mais sendo mulher…!) para manter todas as actividades? Qual a receita?


É verdade, supostamente existem certas regalias na universidade para quem pratica desporto mas é apenas para quem tem estatuto de alta-competição e mesmo esses não conseguem conciliar da maneira que supostamente deveria ser. Deveria haver mais apoios para quem pratica sem ser atleta de elite. Agora, como é óbvio quem quer ser um aluno de excelência pode e deve dedicar-se a outras actividades mas nunca poderá ter grandes objectivos nelas. Na sociedade que temos é difícil ser-se um grande atleta e um grande aluno. No meu caso, não vejo razão para não poder conciliar as duas coisas. Tenho objectivos em ambas, gosto sempre de ter o plano B e utilizo o atletismo como escape para os estudos e vice-versa. Quem tem objectivos tem sempre tempo para tudo.



Sabes, tenho a certeza que o treino invisível é fundamental para o sucesso desportivo, mas por outro lado estás no auge da juventude. Que cuidados tens, se é que os tens!?


Posso dizer que sou uma pessoa que sei pensar pela minha própria cabeça, logo não poderei concordar sempre com tudo o que me dizem e me aconselham. Sei perfeitamente que a capacidade mental num atleta é fundamental, mas não é tudo. Para mim tanto a capacidade mental como a capacidade física têm o mesmo peso, porque que adianta ser-se mentalmente capaz se depois o corpo não tem a capacidade de responder? Se a cabeça fosse tudo teríamos grandes atletas com uma idade já avançada e isso não se verifica. No entanto, o que serve para mim com certeza não serve para outros. Os atletas não podem nem devem ser treinados todos da mesma forma e o papel fundamental de um treinador/orientador não é instituir no atleta aquilo que o treinador/orientador quer mas sim conhecer o atleta e ver as suas necessidades. Quanto aos cuidados considero que não tenho grandes devido à minha maneira de ser, enquanto para a maioria dos jovens da minha idade o maior divertimento que têm é ir para os copos até altas horas, o meu é nas provas. Adoro o ambiente das competições, mas de vez em quando também é necessário fazer algo diferente.



Quais são os teus ideais desportivos, com que sonhas? Pensas que por seres de uma terra que não aposta muito no desporto, esse facto inibe ou inibiu a tua formação desportiva?

Quanto a objectivos/sonhos posso compará-los a uma escadaria em que cada degrau representa um objectivo e no topo encontra-se aquilo que qualquer atleta sonha – os jogos olímpicos. Sei que posso ou não alcançar o topo da escadaria mas o simples facto de saber que tentei me deixará feliz no futuro. Para mim o mais importante é tentar alcançá-los, o resto virá com o tempo. Irei ter muitos percalços pela minha carreira fora. Neste momento o meu maior objectivo é voltar a sentir-me em boas condições físicas, já que esta tem sido uma época bastante ingrata para mim a esse nível, para os meus índices de motivação e confiança subirem. Considero-me uma pessoa impaciente, mas no que toca a atletismo penso que sou bem paciente, não tenho problemas em demorar a lá chegar, isso não me faz desistir. Há modalidades que a subida é mais ou menos rápida, no atletismo é bastante lenta, só se colhe frutos do que se faz depois de anos de prática. Tendo em conta o que o atletismo tem feito por esta terra, penso que deveríamos receber uma maior consideração, mas o facto de ser uma terra que não aposta nunca me inibiu de nada, porque a minha cultura desportiva vem de casa e não de fora.

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